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A informação sempre me serviu como arma para combater a ignorância e os preconceitos. Quando comecei a trilhar os caminhos da inclusão, também passei a utilizar a comunicação como uma ferramenta de inserção social. Hoje, vejo o quão já avançamos neste sentido, pois, nós, pessoas com deficiência, passamos a marcar presença nos jornais, nos programas de rádio, nas revistas. Não podemos negar que aos poucos estamos conquistando espaços na mídia, inclusive, nos programas de TV, veículo de massa poderoso que, a princípio, deveria contribuir para o desenvolvimento social de seu público, muitas vezes, formado por jovens em plena fase de formação ideológica. É o caso do canal MTV Brasil, cujo público alvo são jovens com cerca de 15 a 24 anos.

Recentemente, em seu programa Comédia MTV, a emissora de postura jovem, que sempre adotou projetos editoriais diferenciados, veiculou uma sketch chamada Casas dos Autistas, uma sátira ao reality show do SBT apresentado por Silvio Santos. O quadro, ao meu ver – não tenho intenção de julgar o que é ou não humor ou o que é ou não permitido nele – foi sem graça e desprovido de inteligência. Mas, esse não é o pior, pois, acima de tudo, a piada em questão vai contra tudo que um canal como a Music Television Brasil prega, oferecer entretenimento inteligente. Resultado: um desserviço a um bocado de jovens telespectadores.

Lutamos há décadas para aplicar na prática o conceito de educação inclusiva, mudando o olhar das pessoas sobre as diferentes capacidades de cada um. Programas deste cunho podem causas danos indeléveis, partindo do fato que o público da MTV é o alvo da nossa luta inclusiva: os jovens em fase de aprendizado, que aos poucos começam a se deparar com a diversidade humana dentro das escolas. Precisamos agregar a estes alunos valores de respeito ao ser humano e suas diferentes capacidades e não incitar mais casos de bullying em nossas instituições de ensino.

A Casa dos Autistas não representa, sequer, uma ideia vaga sobre o que é de fato uma pessoa com autismo, tampouco a realidade da qual essas pessoas fazem parte. Quem disse que aqueles trejeitos são típicos do comportamento autista? Poderia ser o reflexo de várias representações, como por exemplo, muito consumo de cocaína e cachaça, algum distúrbio psiquiátrico ou excesso de remédios para emagrecer. Até mesmo os atores foram subutilizados, quem disse que autista não exercita o verbo? O que eram aqueles grunhidos? Algum “lançamento onomatopéico” da Língua Portuguesa?

Se querem fazer humor abordando este tema, sugiro que falem da piada que é o serviço público dirigido a essa parcela da população. Vocês sabem da dificuldade que uma mãe passa para conseguir transporte escolar para o seu filho com autismo? Isso, partindo do pressuposto de que ela foi informada sobre o que seu filho tem, porque na maioria das vezes não é o que ocorre. Você sabia que a maioria destas pessoas tem seu desenvolvimento prejudicado por conta da incapacidade de se diagnosticar de maneira precisa o autismo no Brasil?

A sociedade não conhece o tema, definitivamente, os humoristas, tampouco. Mas, fica aí a dica: se querem satirizar o dia a dia de um autista abordem as dificuldades que uma criança com autismo sofre diariamente para ter acesso à educação, saúde ou uma simples orientação pedagógica. Depois de se informar eu duvido que você sentirá graça diante de tanto descaso e precariedade de serviços.

Conheço autistas que trabalham, estudam e contribuem para a sociedade, mas esta, por sua vez, ainda teima em fingir que essas pessoas fazem parte de outro universo. Quem será que realmente está alienado? No início deste mês, dia 2/4, comemoramos o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. A data foi criada para instigar as pessoas a refletir sobre a inclusão do autista na sociedade. Que tipo de reflexão estamos fazendo sobre o tema com piadas deste cunho? É este o serviço que a mídia quer prestar a sua nação?

Sei que humor não se censura, mas se qualifica, se aprimora. Nunca liguei para piadas relacionadas a cadeirantes, quem me conhece sabe que sou imune a este tipo de comportamento. Piada é feita para rir, mas humor também é feito para criticar o que a sociedade vive dia a dia. Quando se trata de autismo, ainda estamos muito aquém do que consideramos informados. Sendo assim, qual o embasamento para uma piada deste tipo? Sou a favor das pessoas que riem delas mesmas. O que me agride é miséria de boas ideias, de criatividade. Para criar uma sátira é preciso ter conhecimento sobre o seu alvo. Isso é humor inteligente.

Tenho certeza de que a MTV entendeu muito bem as várias críticas que lhe foram conferidas pelo quadro. A emissora se retratou alegando a importância de se respeitar a pessoa com autismo. Uma atitude correta e que fará muitos de seus telespectadores buscarem informação sobre o assunto. É aí que retomamos a essência do nosso trabalho: o uso da informação na quebra de paradigmas.

Aos representantes da causa, parabéns pela disposição em expor a realidade sobre o assunto, em mostrar o descontentamento com a abordagem do tema. Somos livres para fazer graça e para se enfurecer também. Foi-se o tempo em que não tínhamos voz para reclamar, que éramos coitadinhos. Temos inclusive voz para rir, mas daquilo que realmente for engraçado. Passamos de ignorados a alvos de polêmica e criadores de discussões profundas sobre o olhar para o ser humano, diferentes em suas essências, mas ousados em suas deficiências. Tenho certeza de que a nossa força em prol da informação de qualidade provará que somos muitos mais que ridículos estereótipos. E assim poderemos dizer que quem ri por último ri melhor.

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